A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais.

Quem nunca viu Flamarion andar só, quando ver vai notar em seu caminhar uma segurança falsa, e uma tristeza disfarçada de orgulho. Aquele homem que não tem nada a perder não tem medo de morrer, mas tem um vontade filha da puta de viver. Como pode um senhor educado e vivido andar e comer sozinho, um homem caridoso, mentira, ele mal gosta de olhar as velhas viuvas das ruas, sente desprezo por elas, por sua falta de iniciativa e coragem, mas as vezes pensa, são apenas velhas já não tem muito a dar, muito menos a escolher.

Flamarion não tem amigos, não tem esposa, não gosta de gatos, vive com um cachorro velho, que mal anda, mal late, mas arregala os olhos quando o dono chega em casa de tarde. Flamarion é triste mas inteligente, le muita filosofia, só não a usa para nada. Detesta política, os jornais lhe dão enjoou, sempre a mesma coisas, direto de Brasília. Flamarion passa os dias lendo, vive em um apartamento no segundo andar, um velho prédio deixado por sua mãe de herança. Flamarion tem dois inquilinos, que mal ou bem lhe garantem a comida e os livros, que compulsivamente ele compra, as vezes rouba, as vezes pede emprestado para conhecidos, nunca devolve, e assim sempre perde mais um amigo.

Flamarion é contente, pois nos pequenos momentos de leitura consegue viajar nas loucuras alheiras. Vive outras vida que ele sabe que não é capaz de viver, a filosofia lhe cortou as pernas, não pode andar pra frente sem olhar para traz. Mas, esta contente. Flamarion é um bom sujeito, só não gosta de velhinhas.

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